Silêncio

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O silêncio

Sob Escombros

Um tempo houve em que, de tão próximo, quase podias ouvir o silêncio do mundo pulsando onde também tu eras mundo, coisa pulsante.

Extinguiu-se esse canto não na morte mas na vida excluída da clarividência da infância

e de tudo o que pulsa, fins e começos, e corrompida pela estridência e pela heterogeneidade.

Agora respondes por nomes supostos, habitante de países hábeis e reais, e precisas de ajuda para as coisas mais simples, o pensamento, o sofrimento, a solidão.

A música, só voltarás a escutá-la numa noite lívida, uma noite mais vulnerável do que todas (o presente desvanecendo-se, o passado cada vez mais lento) um pouco antes de adormeceres sob escombros.

Manuel António Pina, Como se desenha uma casa. Lisboa, Assírio & Alvim, 2011, pp. 24,25


O silêncio é o elemento predominante nos trabalhos apresentados nesta exposição. O silêncio dos quadros e gravuras, objetos inanimados que ao mesmo tempo reverberam sua representação imagética. O silêncio da fotografia e de frames de cinema, pontos de partida para a criação destas cenas. O silêncio no sentido de não falar, não contar um segredo. O silêncio omisso. O silêncio do luto, da resignação, do inexprimível. Como fio condutor, o silêncio propõe um diálogo sem palavras entre os trabalhos apresentados, ao mesmo tempo em que revela uma desconexão entre eles, gerando uma quase negação na relação entre um e outro.

A pergunta que se pode fazer diante da conexão ou não destes trabalhos e diante de uma realidade muda, vazia, é de que então não há nada a ser representado? Mas silêncio pode também significar o meio de comunicação, o conteúdo. Aqui, a narrativa é sugerida, como na sequência 'A casa', 'A menina' e 'O copo', trabalhos que se constroem como cenas de um filme, aproximando o espectador como uma lente em zoom, configurando uma espécie de procura pelo sentido dentro do sentido.

Numa época multimídia em que a imagem se torna banal, há algo de exibicionista, ou mesmo trágico, numa técnica essencialmente virtuosa. Para alcançar essa aparente inércia do silêncio nos trabalhos aqui apresentados, a técnica é um veículo, mas intencionalmente secundária, levando o espectador a direcionar o olhar para a essência da imagem, a essência da representação.


"Numa época multimídia em que a imagem se torna banal, há algo de exibicionista, ou mesmo trágico, numa técnica essencialmente virtuosa. Para alcançar essa aparente inércia do silêncio nos trabalhos aqui apresentados, a técnica é um veículo, mas intencionalmente secundária, levando o espectador a direcionar o olhar para a essência da imagem, a essência da representação."